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12 de julho de 2021

Ijuí realizou ato simbólico em homenagem às vítimas da covid-19

Um ato simbólico em homenagem às 234 vítimas da Covid-19 foi realizado sábado no anfiteatro da Praça da República, com objetivo de acolher as famílias enlutadas e proporcionar um pouco de conforto. Houve um pequeno culto ecumênico com a participação das igrejas, evangélica, católica e do Lar Espírita.

Além disso, foi acesa uma vela para cada vítima da Covid-19 em Ijuí e a leitura de uma carta denominada de cronologia da dor e da resiliência, disse a advogada e professora Pâmela Copetti Ghisleni.

Relatou também a representação criminal que corre em segredo de Justiça contra o presidente da República. Trata-se de uma grande ação coletiva de indenização por danos difusos e coletivos visando reparar a tragédia e danos morais provocados pelo descaso com que o mandatário tratou do problema, disse a advogada em entrevista ao Fatorama.

Confira na íntegra a carta:

CRONOLOGIA DA DOR (E DA RESILIÊNCIA)
Nenhum de nós gostaria de estar aqui hoje, na condição de enlutado. O que nos une, agora,
é possivelmente o fato mais trágico das nossas vidas.
E que tarefa inglória é esta de colocar em palavras a tragédia, o sofrimento, a dor. O que dizer
da dor do luto? Que consegue numa tacada só misturar amor e dor, culminando numa
saudade ora sofrida, ora mansa, ora com revolta, com verdadeira fúria, ora com gratidão e
aceitação?

Nós, enlutados que estamos pela partida precoce daqueles que amamos, fomos esquecidos.
Fomos e somos esquecidos. Mas, felizmente ou não, nós não estamos sozinhos. São 4 milhões
de óbitos no mundo. Mais de 530 mil destes ocorridos no Brasil. Na América do Sul, o Brasil
concentra mais da metade dos óbitos. Definitivamente, não estamos sozinhos. Somos e
sempre seremos, infelizmente, ao lado de países como Estados Unidos e Índia, o maior
contingente enlutado de pessoas no mundo em razão da covid-19. Só em Ijuí, cidade de 80
mil habitantes, é como se tivessem sido arremessados ao solo cerca de 10 voos comerciais,
causando a morte de absolutamente todos os passageiros.
Nossos mortos morrem todos os dias quando, ao acordar pela manhã, a primeira lembrança
enuviada que nos vem à mente é a da ausência daqueles que não estão mais conosco.
Mas a morte é uma ausência presente, especialmente em tempos de covid. Impossível não se
emocionar e lamentar profundamente cada centena de milhar que o Brasil furiosamente
alcança em números de mortos pela covid. Impossível não se identificar com a dor. Empatia
nunca fez tanto sentido.
Quando começamos a compartilhar o luto, identificamos narrativas muito parecidas umas
com as outras. Os primeiros sintomas parecem o prenúncio de tempos difíceis. Não tão difíceis quanto
éramos capazes de imaginar.
O resultado positivo do exame da covid, ao primeiro impacto, assusta, e denuncia a jornada
dolorosa que está por vir. “Mas, parece ser um quadro leve”, pensamos e, no fundo, estamos
torcendo para isto, para que seja um quadro leve. Jamais conceberíamos, nem mesmo em
nossos piores pesadelos, perder nosso ente querido nessas circunstâncias. Então, ainda com
muita firmeza e coragem, providenciamos, dentro do possível, o isolamento, para que nosso
doente fique num ambiente acolhedor e sinta-se amado, ainda que à distância.
Encaminhamos a medicação que esperamos ansiosamente seja capaz de conter o avanço da
doença e fazer dela, de fato, uma “gripezinha”. Às pressas, compramos ou conseguimos
emprestado um oxímetro, nosso aliado para entender quando vai ser a hora de correr para o
hospital. Monitoramos a febre. Alguns dias são melhores, outros piores e, de repente, é ladeira
abaixo. Internação, fisioterapia pulmonar, fluxo leve, fluxo médio, máscara Hudson, VNI,
UTI, pronação, intubação, traqueostomia etc. Nosso vocabulário foi inflado por termos
clínicos, porque tínhamos de ser capazes de compreender ou mesmo recorrer ao Google
quando os valorosos (e também humanos, é bom lembrar) profissionais da saúde nos diziam,
nas ligações diárias que ansiosamente esperávamos da UTI, que a FiO2 do paciente está boa
ou que foi preciso dialisar.
Para muitos, porém, infelizmente, não deu tempo de compreender esse complexo linguajar
da terapia intensiva. Não havia leito disponível ou, se havia, era distante de casa e o transporte
era arriscado àquelas alturas. A vontade era gritar por socorro para o que ou quem quer que
fosse. “Que desgraça é essa?”, bradávamos afogados em nossa própria impotência.
Para os que tiveram a sorte de ter acesso aos serviços de saúde, é difícil lembrar do momento
em que deixamos nosso ente querido na porta do hospital, com sua mochila nas costas ou
com sua bolsa a tiracolo e, claro, o telefone celular. “Você pegou o carregador do telefone?”,
lembramos aflitos. “Coloquei um bilhetinho na sua frasqueira”, tentamos trazer mansidão
em meio ao caos. Então, segurando o choro e disfarçando o medo (ou tentando disfarçá-lo),
pronunciamos, talvez pela última vez, um embargado e verdadeiro “eu te amo”. O telefone
celular era fundamental porque precisávamos acompanhar, dia após dia, o progresso do
paciente. Não havia outra possibilidade. Todos os caminhos conduziam para a cura, por mais
improvável que ela fosse.
E então, sem mais nem menos, como se a vida nos pregasse uma peça de muito mal gosto,
aquele ou aquela que tanto amamos não está mais conosco. Partiram sem que pudéssemos vêlos, tocá-los, acariciá-los uma vez mais.
E aí, começam os trâmites rumo à despedida que não era pra ser. Procedimentos burocráticos,
desagradáveis, no mínimo deselegantes, tudo isso pra ter em mãos uma “certidão de óbito”
que num piscar de olhos vamos dobrar ao meio para evitar que expressões como “óbito” e
“causa da morte” nos confrontem ao lado do nome do nosso ente querido.
Somos forçados, neste momento, a tomar decisões que não queríamos tomar. E fazemos tudo
isso sozinhos, em nosso pequeno núcleo familiar, contando com a ajuda de poucos amigos,
porque em meio a pandemia, é o luto possível. “Vamos cremar, enterrar? Faremos velório?”.
As normas sanitárias sobre atos fúnebres somente permitem o velório com caixão fechado.
Àquela altura, estranhamente agradecemos por não poder fazer velório. Não queremos ser
confrontados com o olhar piedoso do outro que denuncia a morte que acabou de acontecer.
Além disso, o medo da contaminação nos enche de pânico. “Não temos condições emocionais
de passar por tudo isso de novo”, dizemos. E ficamos assim, enclausurados, em nossa
despedida de 5 pessoas, um pouco mais, um pouco menos, para a qual sequer pudemos
escolher uma roupa bonita para os nossos mortos vestirem.
Passados os primeiros dias, que são arrebatadores, cruéis, dias impossíveis, ficamos confusos,
assustados. Perdemos a noção do tempo, das horas, das coisas.
Somos consumidos por um medo de olhar as fotos porque elas nos fazem sentir ainda mais
saudade. Na TV, somente programas que não remetam à catástrofe política e sanitária do país.
Não queremos ler os jornais, não queremos olhar os sites de notícias, porque nós, enlutados,
e os nossos mortos, estamos lá. Somos, também, a pauta.
“Fique com as boas lembranças”, eles dirão, tentando amenizar nosso sofrimento. Acenamos,
concordando. Estamos cansados demais para argumentar que as lembranças são boas, sim,
mas são lembranças que não experienciaremos mais, pelo menos não no mundo da vida. Se
tivermos sorte, podemos sonhar com nossos mortos e acordar com um sorriso.
Mas, ao mesmo tempo, são, de fato, as boas lembranças que nos assaltam o pensamento dia
após dia, noite após noite, e nos colocam no rosto um riso frouxo, ainda tímido. Frouxo e
tímido, mas genuíno, porque o que passou foi muito bom.
Passado um tempo, tempo este que varia muito de uma pessoa para a outra, de uma família
para a outra, as fotos começam a tomar conta da casa, dos bidês, das paredes. Passamos a olhar
fixamente para as fotografias do nosso ente querido com medo de que esqueçamos de cada
detalhe, de cada traço que lhe afeiçoava o rosto. Ouvimos e assistimos com carinho todos os
vídeos que as novas tecnologias nos proporcionam para que não nos esqueçamos também dos
trejeitos e, finalmente, da voz, que tantas e tantas vezes repetiu nossos nomes e apelidos de
forma carinhosa (às vezes, nem tanto).
Quando, enfim, conseguimos nos postar em pé, ainda que cambaleando e confusos, após os
singelos, mas muito singelos mesmo, atos de despedida em tempos pandêmicos, a vida
denuncia que, no primeiro dia útil seguinte, precisamos trocar a titularidade de contas,
encaminhar requerimentos de benefícios previdenciários (mais uma vez, se tivermos sorte),
providenciar inventários e encerrar contas bancárias. E, não bastasse isso, volta e meia ainda
somos surpreendidos com uma ligação inconveniente do telemarketing pedindo para falar
com aquele que já partiu. Ficamos, obviamente, indignados: “Como é possível eles não
saberem que ele ou ela morreu?”.
Um frio nos percorre a espinha quando entramos no estabelecimento comercial na cidade e
somos confrontados com pessoas sem máscara, rindo. “Devo pedir que coloquem a máscara?”,
nos questionamos, “ou vão politizar até mesmo meu luto e meu medo?”. “E como podem
ainda rir das coisas em meio ao caos?”. Sim, nós, enlutados, pessoalizamos tudo neste
momento, e fazer isso é demasiadamente humano, a ponto de nos enojarmos com o riso
alheio daqueles que sequer sabem quem somos, que sequer sabem quem são os nossos mortos.
Quando a vacina (superfaturada ou não) finalmente está disponível para nossa faixa etária e
para os que amamos, sentimos um misto de alegria e revolta. Para a imensa maioria dos que
partiram, ela não foi comprada. Para outros, embora tenha sido disponibilizada, não foi o
suficiente para evitar o trágico desfecho.
Os teus sapatos, que ainda estão na sapateira, carregam nas solas os caminhos de uma vida
inteira que foi precocemente interrompida. Ora e outra “caímos em tentação” e, num gesto
irrefletido (ou não), cheiramos teu perfume, que ainda está na prateleira do banheiro, mesmo
sabendo que diante do teu cheiro a única possibilidade é o choro.
Nos grupos de WhatsApp, a ausência também parece gritar. “Fulano/fulana saiu”. Quanta
violência! A troco de quê o WhatsApp arbitrariamente remove aquele ou aquela que amamos
dos grupos da família e de amigos? Enxugadas as lágrimas, e recolhida a fúria, nos damos
conta de que talvez será melhor assim. Era difícil ver que as mensagens não eram recebidas
por quem nos deixou. Além disso, não podemos nem pensar em removê-lo ou removê-la do
grupo por conta própria, a não ser que seja para levá-los conosco para outro lugar, talvez num
sonho.
Sim, a morte é ausência presente. Ausência que fala, que grita, que berra. Quando a vida, em
seus caminhos tortuosos e nada óbvios, nos oferece uma tragédia desta envergadura, nos
furtando, geralmente num curtíssimo espaço de tempo, a presença física solar daqueles que
tanto amamos, o que fazer? Como continuar nossa vida? Falta um pedaço. Sempre faltará.
Não há dor fora da vida. A morte se impõe e com ela a ausência de quem partiu. A morte de
quem amamos denuncia a transitoriedade da vida e o fato de que, um dia, morrerá a última
pessoa da face da Terra que pode, enfim, falar sobre nós que estamos aqui hoje, agora, neste
exato momento.
A impressão que temos é a de que estaremos enlutados para sempre. E talvez estaremos, de
fato.
O saudoso escritor mineiro Guimarães Rosa, em “Grande Sertão: Veredas”, diz que “O correr
da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois
desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.” Então, que tenhamos coragem. Que
possamos, por mais difícil, penoso e árduo que seja o luto, ressignificar nossa existência e
nossas relações.
A propósito, será que não sofreríamos tudo de novo em troca de viver mais um ou dois dias
com os nossos mortos? Parece-me que todos nós experimentaríamos quantas vezes mais
fossem necessárias o sabor amargo do luto para ter a oportunidade de dar mais um abraço, de
fazer mais um cafuné, de brigar uma vez mais. E isso basta. A vida ainda pode ser boa e, se
tudo der certo, vamos acumular saudades de pessoas que amamos e deixar nestas mesmas
pessoas saudades de quem nós fomos, somos e ainda seremos.
Ijuí/RS, 10 de julho de um 2021 tão lancinante quanto foi 2020.
Pâmela Copetti Ghisleni,
Associada e Assessora Jurídica da AVICO-BRASIL,
Enlutada pela perda de seu pai, na tentativa (impossível) de narrar a dor dos enlutados brasileiros em meio à pandemia de
COVID-19.

Fonte: Rádio Repórter/Avico
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